O Futuro das Atividades Aquáticas

O Futuro das Atividades Aquáticas

No passado dia 17 e 18 de outubro, decorreu o Congresso Internacional Online para Profissionais de Atividades Aquáticas, onde foram partilhados conteúdos exclusivos e enriquecedores, pelas maiores referências do desporto aquático. Foram 27 masterclasses, um workshop cheio de energia e boa disposição, em direto, e uma mesa redonda, onde se pretendeu discutir a atualidade e o futuro das atividades aquáticas.

Durante a Mesa Redonda, que decorreu no final da manhã do dia 18 de outubro, contámos com a presença de algumas das referências da área do desporto aquático, com um contributo de alto valor para o momento que atravessamos, marcado pela pandemia provocada pelo COVID-19, em que todos nós, de uma forma ou de outra, fomos atingidos. O mundo aquático não foi exceção e os seus profissionais tiveram de se adaptar ao longo dos últimos meses a uma nova realidade, o chamado Novo Normal. Usando as palavras da Tinoca, diretora pedagógica da Aqua Academy by Mundo Hidro e moderadora do debate, durante esta mesa redonda, pretendeu-se discutir “aquilo que é o nosso futuro, o futuro da nossa profissão e das nossas piscinas.”

Partilhando o seu conhecimento e a sua experiência dos últimos meses, contámos com a presença de: José Carlos Reis, presidente da Portugal Activo; Daniel Marinho, responsável pelas seleções júnior e pré-júnior de Polo Aquático na Federação Portuguesa de Natação; Renata Tarevnic (Brasil), doutorada em Biologia Humana e Experimental; Vanina Delfino (Argentina), diretora do Centro de Educação Aquática ACQUAMAR em Buenos Aires, Argentina.

Daniel Marinho inicia a sessão com o exemplo do Polo Aquático, uma das modalidades que foi considerada de alto risco e que por isso mesmo, trouxe algumas responsabilidades acrescidas e também desafios muito importantes, tanto para a Federação Portuguesa de Natação (FPN), como para as associações territoriais, escolas e clubes, estes últimos com bastantes dificuldades ainda. O caminho que se tem percorrido nos últimos meses, desafiante, é o de tentar criar as condições para que esta modalidade possa continuar a ter o seu ascendente, dentro das modalidades coletivas.

Representando a FPN, Daniel Marinho refere que os principais desafios da FPN são similares aos que todas as federações estão a ter no momento atual, num esforço por manter o dinamismo das atividades de grupo, para manter clubes e escolas de natação abertos, bem como, manter o número de afiliados, que estava em fase crescente antes da pandemia chegar: “A pandemia veio no momento complicado para todos (…). Tentar que as pessoas que estavam afiliadas, não deixem de estar, que os clubes consigam manter a sua atividade desportiva e recreativa, que as escolas de natação consigam sensibilizar os agentes responsáveis, para a importância de ter as piscinas abertas respeitando as condições e medidas de segurança que têm vindo a ser implementadas (…).

Destaca algumas medidas da FPN, tais como, a diminuição de forma acentuada e, em alguns casos a anulação total, das taxas de inscrição, por exemplo nas competições e afiliação.

Daniel Marinho fala-nos, ainda, um pouco do caso dos atletas de alta competição, entre os quais os apurados para os jogos olímpicos, que numa fase inicial deixaram de treinar em piscina, mantendo apenas o treino a seco, o que se mostrou desafiante para os atletas: “Não podemos deixar que os nossos melhores nadadores e atletas de alta competição não deixem de treinar ou de ascender à alta competição”.

Daniel Marinho salienta, ainda, a importância da organização do meeting de Loulé, uma das primeiras competições pós-pandemia, numa piscina olímpica e aberta, onde participaram atletas de várias seleções, apurados para os jogos olímpicos: Este evento “assegurou que os atletas estavam a treinar para um objetivo, os jogos olímpicos (…); foi importante na medida em que mostrou que, mesmo com limitações e adaptações é possível continuar a desenvolver as atividades nas piscinas”.

Há que ter em consideração que desde março que não há atividade competitiva a não ser em águas abertas e algumas pequenas iniciativas de alguns clubes, provas particulares com o apoio da federação. No entanto, desde setembro que está previsto e planeado um calendário competitivo com algumas adaptações, tais como, o número de nadadores em piscina e a impossibilidade de haver público.

Quando questionado sobre o que esperar do futuro, Daniel Marinho não tem dúvida que já se sente uma diminuição de nadadores e alunos, tanto em escolas de natação como em clubes com escalão de formação, havendo já casos de desistência da modalidade.

Porque a situação epidemiológica é mundial, importa conhecer a realidade de outros países e os desafios que têm vindo a sentir, tal como nos foi apresentado por Vanina Delfino, a qual tem vindo a desenvolver um papel significativo na ponte entre o governo e os instrutores de fitness aquático, na Argentina. Chama a atenção para o facto do contexto do fitness aquático nesse país, ser bem diferente do europeu, onde a grande parte das piscinas (quase todas piscinas de ensino, muito poucas as olímpicas) e suas instalações são muito pequenas, dificultando a implementação das normas de segurança e de prevenção, face à situação epidemiológica.

Apresenta-nos, ainda, algumas soluções encontradas para conseguir que os atletas não parassem os seus treinos, após mais de 200 dias com as piscinas encerradas na Argentina. Juntar os atletas num género de bolha, após todos terem sido testados e abrir piscinas em cidades em que a situação epidemiológica se mantinha estável e com poucos números de contágios, foram algumas das soluções implementadas.

Tendo em conta que a pandemia entrou na Argentina no início do inverno, ao contrário do que aconteceu na Europa, não foi possível seguir o exemplo das guidelines europeias que estavam a ser implementadas neste último. Por isso mesmo, e tendo em conta que as estruturas na Argentina são bem diferentes do contexto europeu, com o apoio de todos os intervenientes nas atividades aquáticas e em ponte com o governo argentino, foi redigido um documento normativo, de forma a se regulamentar o uso das piscinas.

José Carlos Reis, presidente da Portugal Activo e que tem vindo a desenvolver um papel importante na representação da indústria do fitness em Portugal e como interlocutor junto do Estado, esclarece-nos sobre as normativas criadas em articulação com a FPN para a utilização das piscinas.

Um dos temas mais questionado é relativo ao número de utilizadores máximo em piscinas. José Carlos Reis, refere que tendo em consideração os 3 metros de afastamento, esse número vai depender da organização que se faz da piscina. Por exemplo, retirando uma das divisórias da pista e colocando os utilizadores a nadarem em sentido contrário, possibilita a utilização de mais do que duas pessoas por piscina.

Outro dos temas que é bastante questionado, é relativo à segurança da utilização dos balneários. José Carlos Reis indica que não há qualquer indicação por parte da Direção Geral de Saúde (DGS) de impossibilidade de se utilizar estes equipamentos, desde que sejam cumpridas as regras de distanciamento de 2 metros, bem como do uso da máscara e desinfeção do espaço.

Ainda sobre a decisão de alguns municípios de não abertura das piscinas municipais, apesar de não haver qualquer indicação da DGS do contrário, na opinião de José Carlos Reis, as autarquias que optam por não abrir as suas instalações estão a prejudicar a sua população ao inibi-las de serem pessoas mais saudáveis, mais ativas e mais fortes, principalmente quando se sabe que a atividade física tem resultados positivos no reforço do sistema imunitário, bem como na saúde mental dos seus praticantes.

Como Renata Tarevnic reforça, a atividade física tem ainda mais importância nesta altura, podendo contribuir para o fortalecimento do sistema imunitário e para a saúde mental dos seus praticantes. Há, ainda, muitas poucas evidências sobre o covid-19 e a prática do exercício físico, apenas sugestões, no entanto, sabe-se que o exercício é benéfico tanto na prevenção, quanto no processo de recuperação de doentes infetados pelo vírus Covid-19. Partilhando a realidade do Brasil, Renata Tarevnic refere que há situações preocupantes, salientando o abandono da atividade física por parte da população considerada de risco, tais como hipertensos e diabéticos.

Relativamente ao treino de alto rendimento, Renata refere que já há guidelines específicas para prescrição de treinos em atletas que foram infetados, onde se podem encontrar as diretrizes de prescrição de planos de treino de acordo com os sintomas que esses atletas tiveram. No fundo, o que se recomenda é que o volume e intensidade de treino deve ser aplicado de forma gradual, do mais baixo e moderado, de acordo com as características individuais de cada um e com o tempo que esteve em inatividade.

Ainda durante o seu contributo nesta mesa redonda, Renata fala-nos de como é trabalhar, atualmente, com doentes de risco, nomeadamente grávidas de risco e doentes em reabilitação cardíaca, e quais as estruturas criadas para manter esta população segura e para que se sintam, eles também, seguros na prática do exercício aquático.

Durante esta mesa redonda, todos os oradores foram unânimes em relação à importância da prática do exercício físico, principalmente em populações especiais e com patologias específicas. Importância esta, tanto no melhoramento de patologias físicas, como na saúde mental dos seus praticantes, dando-se o exemplo da população sénior, em que a falta do contacto social que a atividade física lhe proporcionava, teve um impacto preocupante, tanto ao nível físico como mental.

Alertaram ainda, para não se ir além das normas da DGS e para a necessidade de uma coordenação com os delegados de saúde, que deverá ser realizada com bom senso e algum ajuste. Perceber que as piscinas são um local seguro, que o exercício é necessário e benéfico, principalmente numa altura como esta. Sem dúvida, esta foi uma sessão bastante esclarecedora com contributos fantásticos! Se queres saber mais sobre tudo o que foi partilhado, tens a oportunidade de rever esta e outras sessões clicando aqui.